Noites traiçoeiras

24/05/2009

Fui o tipo da criança que deixou de comer bife e peixe por anos, porque eles eram seres vivos e tinham olhos. Por isso, mamãe não me contou a verdade sobre o peito de frango, para garantir alguma fonte de vitaminas e aminoácidos na minha alimentação. Desde então eu sou muito ecochata, pronto, cabou minha biografia.

Porque não bastava eu trabalhar a semana inteira até dez da noite fechando revista. E não bastava papai ter recebido um trote de algum presídio [aquela coisa bem lógica do 'um familiar sofreu acidente, mas compre três cartões Claro e nos passe a numeração, tudo ficará bem, acredite'] e ter me telefonado em seguida, descontando a raiva em mim.

Eu precisava de mais emoção.
E quis o destino que um bêbado tentasse invadir meu prédio na mesma noite.

YEAH.

1

Na verdade, o sujeito era um CACHO de uma menina que mora no comdomínio, com a mãe. Três e meia da madrugada era o horário perfeito para ele dar uma passada lá, tomar um café, oisogratudobomvimtever. Lógico que o porteiro não permitiu que o cara entrasse, naquele estado alterado de consciência e àquela hora da madrugada. A mãe da menina atendeu o interfone aos bocejos e disse que nem conhecia a figura, o que foi lindo e bem espírito-de-porco, convenhamos. Tipo “nunca vi esse sujeito, tirem-no daqui”. Delícia.

Fez-se o cenário de horror. O bêbado ficou furioso do lado de fora, chutava o portão, fazia um barulho horrível. Smells like baixaria spirit.

[tirem as crianças da sala para que eu possa dizer o estribilho da canção]

- Ah, porteiro, você não vai abrir não? Seu filho de uma RAPARIGA RUIM! Corno, viado! Venha aqui, venha apanhar de um MACHO!

Os apartamentos iam acendendo as luzes, as típicas cabecinhas nas janelas surgiram and so on.

E que entrem os *valentões de short*. Todo prédio tem pelo menos dois, pra dar cobertura e proporcionar mais intensidade em momentos como esses. Daqui, desceram uns seis. Logo alguém arruma um pedaço de pau [tava guardado na mesa de cabeceira? ou na cristaleira, quem sabe], num instante supremo de civilização. Minha irmã informa que um deles lutava muay thai, jiu jitsu, boxe tailandês, sumô, war, palitinho, banco imobiliário e toda sorte de esportes que você conhece. “Ele deve beber leite e ser temido em todo o faroeste”, pensei, quando vi o sujeito.

O estribilho da canção o tempo todo no ar, repetindo na rave, mentalizem, mentalizem.

Um dos valentões de short encara as críticas do bêbado como pessoais e retruca:

- Seu merda!

E chuta o portão, pedindo pro porteiro abrir e deixá-lo RESOLVER a situação como HOMEM. Aposto que ele tem uma torre de caixas de som e um filete de neon no carro tunado. Típico. Cada um enfim, dando sua contribuição para a resolução harmônica e pacífica do conflito. Não sei porque ainda existem guerras no mundo, se há tanta diplomacia em nosso redor. E, nessa hora, desce a esposa do muay thai, para segurar o homem. Outra fofa também chega, de CAMISOLA PRETA, portando um poodle toy e UMA CÂMERA DIGITAL. Acho a presença da imprensa fundamental, para registrar. Não sei como não fizeram um streaming da situação, no JustinTV. Devia ter o twitter também, do @bêbadobosta. Eu, FUMAÇANDO de ódio. Meus pais nem tomaram conhecimento. Minha irmã veio fofocar no meu quarto, ainda bem.

O bêbado cada vez mais furioso, e resolvo ligar para a polícia. Eu não tô com a vida ganha, tinha que trabalhar dali a algumas horas e tenho uma pele a zelar. Julgava que o momento precisava de uns cops.

2

Não, não são copos. Eu disse COPS, tiras da pesada, tal.

O atendimento do 190 é lindo e atencioso….. NA ISLÂNDIA. Dei boa noite, descrevi a cena, disse meu nome, o endereço, o número, o bairro, um ponto de referência, pedi por favor para mandarem alguém. Basta? NOT. “Qual a via de acesso”? [tac tac tac, digita-digita] Porra, eu moro numa avenida. Que raios de “via de acesso” ela sugere, além da avenida em si? O endereço é pra eles chegarem de carro, não de esquadrilha da fumaça, pô. Saco. Daí, a vaquinha pergunta: “Ahnn, tá. Mas qual é o endereço mesmo?” [tac tac tac, digita-digita] AH, SÉRIO. Ela trabalha mesmo na polícia ou aquilo é o Habbib’s? “Se um policial não chegar em 28 minutos, a senhora não paga a pizza”.

A fofa disse que a viatura da Ronda [sempre lembro da música da Rosana, do 'animal que ronda'] já estava se deslocando.

[tic-tac-tic-tac | 15 minutos]

A confusão prossegue na portaria do prédio, as ameaças ao porteiro-sangue-de-barata, os valentões de short, “vem pra cima, seu corno manso!”, o poodle latia, a moça de camisola falava “calma, rapazes” e nem sinal dos cops. Quatro da manhã e meu dia de trabalho prometia ser ma-ra-vi-lho-so. Ligo novamente para a simpática moça do 190. Era o carisma em pessoa: “A senhora tenha calma, AFF, que a viatura já está chegando! AFF! Já recebemos QUINHENTOS telefonemas, viu, tá chagando”. E ela pede pra eu REPETIR o endereço. [tac tac tac, digita-digita] Era uma calma, parecia que eu tava ligando pra um jardineiro vir podar a grama do meu campo de golfe.

Finalmente, fico impaciente – o que é um milagre. “Senhora, por favor, a situação está grave, o rapaz quer invadir o prédio, vai que ele está armado? Daqui a pouco, nem vamos precisar dos policiais, a gente liga pro IML direto, pronto, olha que bom”, essas coisas. “AFF, a senhora sabia que a viatura precisa de tempo pra se deslocar? AFF”. Lembro que a Ronda era DO QUARTEIRÃO. Ela dá um “bom dia” despeitadíssimo e DESLIGA NA MINHA CARA.

Deixa eu ver se entendi. Gente, me ajuda. Eu queria saber em que espécie de ringue aquela vaca foi treinada. Ela tava ali do lado, lustrando uns coturnos, e acabou atendendo o telefone. Prefiro acreditar nisso, a saber que essa moça passou por um treinamento. Eu só queria um policial, tava todo mundo em perigo, tinha um louco aqui fora… e a atendente brigou comigo e me tratou com abuso, além de desligar na minha cara. Vaca.

Eu nunca tinha precisado ligar pra polícia, sabe, e minha decepção não teve tamanho. Eu esperava que a experiência seria algo como o Emergência 911, aquele programa legal americano. Policiais afáveis que atendem em uma sala onde só tocam telefones. Tiras tão bacanas que ajudam um pivetinho de quatro anos a resolver a lição de matemática [Foi lindo, vejam]. Tiras dinâmicos e racionais, tipo “senhora, estamos na West End com 74th, sentido oeste, estamos a caminho, existe alguém perto que possa fazer uma massagem cardíaca?, destranque sua porta”.

Queria ver se essa atendente vaca daqui fosse ajudar a moça que foi vítima de uma picada de viúva negra, escondida em sua pantufa, em um episódio que até hoje influencia meus hábitos. A coitadinha teria experimentado uma morte lenta e dolorosa, com sudorese e CHOQUES, sacam.

3
Não, não é a dos Vingadores, falo da viúva negra, a aranha. Nunca mais calcei meus all stars ou sapatilhas sem olhar antes o sapato todinho por dentro, pra ver se não tem uma viúva negra, uma tarântula ou uma barata, uma iguana, sabe-se lá, qualquer um desses animais asquerosos que Deus colocou na terra só pra brincar com nossos sentimentos.

4
E, contra viúvas negras, use PEEP TOES. São lindos.

Minutos depois, chega a polícia. Não vi bem o que aconteceu, mas tudo parecia resolvido. Os cops levaram o rapaz bêbado, e os valentões de short, a moça de camisola, o poodle e todos voltaram a dormir.

Todos, MENOS EU, lógico.

No quarto, tenho que me contentar com a lástima da TV aberta. Os sujeitos que montaram a programação fizeram algum pacto com a ["versão brasileira"] Álamo – o Herbert Richers perdeu a licitação? – e o David Lynch. Só isso pra explicar a sucessão de cenas insólitas, enquanto zapeio os canais. Fiquei pensando que tudo aquilo deve ter algum sentido oculto, uma mensagem, um spoiler do Lost, anything.

Em um filme do Corujão, duas moças, que aparentavam ser assassinas lésbicas, tavam numa roda gigante ameaçando um rapaz de rosto desfigurado. [corta] Chego em um debate sobre a regulamentação das terras ocupadas na Amazônia. [corta] Passo por um programa local onde bailarinas dançam forró com PASSINHOS DE FUNK, enquanto um sanfoneiro de BOTAS BRANCAS toca uma canção frenética. [corta] Brincos de rubis leiloados. As unhas da mulher que mostrava as joias eram perfeitas, aí lembrei que no dia seguinte eu tinha marcado hora na manicure, depois de duas semanas sem tempo livre. Eu poderia alimentar as crianças da África com minhas cutículas. [corta] A propaganda da Polishop mostrava uma escada que pode ser montada de sete maneiras. Praticamente um kama sutra. [corta] Listras coloridas em um canal sem programação. [corta] Em outra emissora local, a VJ tentava pronunciar o nome da menina que queria votar no clip da Rihanna. A garota não queria dar seu nome verdadeiro, então se identificou com um nome improvável que ela usa na internet, que devia ser Lady Sakura qualquer coisa. [corta]

Depois de ganhar 564 pontos de Q.I. com essa programação, quis o destino que eu dormisse.
E ainda quis o destino, esse garoto-maroto-travesso, que eu acordasse UMA HORA DEPOIS com novos gritos e chutes no portão do rapaz bêbado, às seis da manhã, querendo novamente entrar. Ah, tenham dó. Acho que os policiais fizeram aquele servicinho excelente de sempre, de levar o cara na cadeia, dar umas surras, atualizar a ficha criminal, deixar o sujeito bem revoltado e dar uma carona pra ele se vingar de quem chamou os guardas, fechando o ciclo. A tag #freemarginais reina.

Os vizinhos ouviram a situação, voltaram a acordar e conversavam – de um bloco a outro, gritando pelas janelas -, ultrapassando todas as barreiras remanescentes da noção. Eu já tava esperando que alguém montasse uma mesa de café da manhã com uvas e queijos, lá embaixo, para todos ficarem mais à vontade na repercussão do fato, que nem sei como terminou, porque fiquei com tanta raiva que fechei as janelas para dormir mais 20 minutos.

Vou formar a ONG Educa, Brasil e fazer uma apostila de boas maneiras, com as regras dos talheres, dicas de como falar baixo e 450 horas/aula sobre noção.

E hoje foi um emocionante post, sei lá, de cunho social.

I’m back.

14 repostas

De volta e em grande estilo! Fiquei imaginando toda a cena...

Flá | 24/05/2009 | 21:02

De volta e em grande estilo!

Fiquei imaginando toda a cena… e claro, senti vergonha alheia pela mulher de camisola no meio do furdúncio….

Lucy "the red" Andrade, vou denunciá-la por tentativa de homicídio!

Tiago | 24/05/2009 | 21:51

Lucy “the red” Andrade, vou denunciá-la por tentativa de homicídio! Quase me rachei de tanto rir aqui! Criatura, coloca um aviso em letras garrafais verde-limão da Patagônia no cabeçalho do blog: ATENÇÃO! CARDÍACOS, PESSOAS DE CONSTITUIÇÃO FRÁGIL E TIAS VELHAS MAL COMIDAS (POIS SÃO AMARGURADAS POR NATUREZA) NÃO DEVEM LER ESSE BLOG! Nam!

aahahaahahahahaha Ô situação! A única vez que precisei da polícia, era

Jacqueline | 24/05/2009 | 22:32

aahahaahahahahaha
Ô situação! A única vez que precisei da polícia, era 1 da manhã, e eles apareceram as 6:30h. AHAHAHAAHAHA

Tanto tempo longe pra que, hein miss flows? ;)

enio | 25/05/2009 | 11:10

Tanto tempo longe pra que, hein miss flows?

;)

Genial. Só isso mesmo. ; )

fpalacio | 27/05/2009 | 21:24

Genial. Só isso mesmo. ; )

Só contigo mesmo...kkkkkkk. Tem que rir pra não chorar. Bjim. =)

Claudinha | 03/06/2009 | 17:25

Só contigo mesmo…kkkkkkk.
Tem que rir pra não chorar.

Bjim. =)

a única vez que recorri à polícia foi quando meu

Mônica | 03/06/2009 | 23:35

a única vez que recorri à polícia foi quando meu vizinho desceu o cacete na esposa. a atendente com aquele savoir faire me disse que se fosse casa tudo bem, mas como era condomínio, a polícia só poderia entrar se fosse a vítima que pedisse socorro. diante da minha incredulidade, me sugeriu que eu levasse o telefone até ela.

bom, se o elemento estava socando a mãe do filho dele, imagine o que ele faria com a vizinha metida.

sensatez, uma palavra esquecida nos dicionários.

Literalmente eu CHOREI de tanto rir !!! É claro que entre

Cris | 05/06/2009 | 21:38

Literalmente eu CHOREI de tanto rir !!!
É claro que entre meus soluços senti dó de voce.
Descobri seu blog agora e vou virar leitora assídua…
Na hora me identifiquei com voce pois também sou uma paulista que vim pra Fortal menina, aguentei piadinhas na escola , às vezes não entendia o que falavam (Rebola no mato ?? KK) e ainda me chamam de fresca por não topar uma panelada mas… torço pro Curíntia !

oi baby, achei seu blog. espero encontrar tempo para me

Raquel | 10/06/2009 | 16:44

oi baby, achei seu blog. espero encontrar tempo para me divertir com seus outros textos, pq este post está, no mínimo, hilariante. simples, direto e deliciosamente irônico. bjus.

Caralho, o texto é tão enorme e sem divisão que

Joel Wallis | 16/06/2009 | 19:07

Caralho, o texto é tão enorme e sem divisão que não cheguei a ler todo, mas enfim, que noite hein?

Bem, só queria dizer que achei muito legal o cara sair de casa pra bater em um bêbado! Ele realmente é o cara!
Eu fico imaginando a dificuldade que ele teve em derrubar o cara, ainda mais sabendo que ele lutava muay thai, jiu jitsu, tae kow do, tôcumdôr, karatê, street fighter e o caralho de asa.

Decidi declarar que existem dois tipos de lutadores: o que aprende a brigar e o que aprende a viver. O que se torna calmo e o que se torna imbecil.

“Toda generalização é burra!” ;)

Eu inda venho aqui. = *

enio | 19/06/2009 | 12:13

Eu inda venho aqui.

= *

Só um adendo, o atendimento do Habibs é excelente, eu

Nilson | 03/07/2009 | 18:41

Só um adendo, o atendimento do Habibs é excelente, eu demoro 4min e meio entre ligar e terminar meu pedido e chega em menos de meia hora, que tal as atendentes do habibs fazerem um workshop para as atendentes da polícia? e pasme, ainda são simpaticas!

Alô criatura, de onde mesmo que tu saiu ?

Roberto Módena | 09/09/2009 | 19:55

Alô criatura, de onde mesmo que tu saiu ? rsrsrsrsrs
Achei o máximo essa istória, totalmente ilariante.
E se quer saber o mais interessante é que abri seu blog por curiosidade pra ter idéias pra terminar uma música que estou compondo e mesmo não sendo o contexto que procurava, acabei tendo ótimas idéias que irei aproveitar.
Show de bola, e estou te add em favoritos pra não te perder de vista, ou melhor, na rede, e com certeza irei visita-lo ( o blog ) constantemente.
Um abraço de um novo fã

Mas conta mais: ideias pra uma música??!

Flows | 15/09/2009 | 13:59

Mas conta mais: ideias pra uma música??!

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