Se Maomé não vai à montanha… Pó. Axé. Ruínas. V…
8 09 2006Se Maomé não vai à montanha…
Pó. Axé. Ruínas.
Você, enfim, finalmente se exila voluntariamente em Nova Iorque. Caminha no Central Park, come aquelas baked potatoes maravilhosas, vai a shows incríveis que ocorrem de surpresa a céu aberto, anda por aquelas ruas lindas repletas de neve e skyscrapers, corre o risco de esbarrar com o Brad Pitt ou a Britney Spears derrubando o bebê na rua a qualquer momento, tem acesso à vanguarda da arte, moda e ipods, ganha em dólar e vive uma existência plena em cosmopolitismo, luxúria e rock´n roll, ao lado da loja de cds Virgin Megastore. Ou seja,você é feliz.
Então, repito, você é uma pessoa feliz e a Globo inventa o Brazilian´s Day, com a participação de Leonardo [ai, ele chegando de surpresa em casa, brejeiro, naquele comercial do sabão, grrrr] cantando “Sinhá Moça minha guia, minha estrela noite e dia… La la la la la la la…” e da Ivete “abalou, sacudiu, balançou” Sangalo e transforma seu adquirido conceito de vida saudável, seus novos valores estéticos, em pó, axé e ruínas. Não, ninguém precisava estragar seu sonho e fazer você, sortudo brasileiro imigrante que mora em Nova Iorque, recordar suas supostas raízes. Eles ainda chamaram o Mocotó e o Murilo Benício pra fazer discurso engraçadinho no palco, olha que uó. Numa reportagem do Fantástico, um brasileiro malemolente exibia, com orgulho, a barraquinha do CHURRASQUINHO DE GATO. Aliás, sempre é a mesma coisa, o repórter descontraído pergunta “É de gato mesmo?”. Se fosse eu, bruta como sou, responderia, ao vivo: “É, porra. Prova aí, animal”. Isso tudo ao lado das mulatas saracoteantes eternamente vestidas de penas e biquíni com franjinha de strass.
Acho que, na mala, elas só levam biquíni. Durante a Copa da Alemanha foi a mesma coisa. Faça chuva, faça sol, chova canivetes, elas tão lá, de biquininho. Na bagagem, cavaquinhos, biquínis e sandálias de passista. Imagino a vida opressora dessas mulheres, que acordam, tomam banho e café, colocam aqueles sutiãs de arames, suportam o terrível som do cavaquinho um dia inteiro e saem pra “representar” o Brazil em eventos. Eu nunca vi uma mulher dessas parada, só em movimento, se balançando pra algum cara de calças brancas e blusa da seleção, que se ajoelha e roda um pandeiro com um jeito moleque de ser. Por isso é que somos um país emergente e nossas exportações de suco de laranja aumentaram apenas 46% no governo Lula.
- É, pessoal. Definitivamente, eu não agüentaria essa vida de mulata de samba. Preferi, apesar dos convites e de meu remelexo*, fazer um mestrado.
E essa concepção de brazilian é muito generalizadora. Eu, pra citar um exemplo aleatório, sou uma das pessoas menos brazilian que conheço e me encaixaria muito melhor no, sei lá, United Kingdom´s Day. Só com bandinhas da cena rocker, com caras drogadinhos, androgininhos, posers e blasés, de guitarrinha, adidas e cabelinho assim, jogado no rosto.

- Lucy, tive uma idéia. E se você passasse o day inteiro aqui em casa?
* remelexo é uma palavra engraçada, assim como totem.
travis, flowers in the window











.a sign