Hoje eu vejo que…

11 05 2008

…além de rabugenta, eu também tenho cara de doida.
Since 1987.

Normalmente, no dia das mães e/ou dos pais, costumo me lembrar da infância. Acho que com todos acontece assim, né. Mas enfim, nunca as minhas lembranças são propriamente convencionais. Claro.

Sempre recordo as festinhas de escola ou as coisinhas para essas datas que produzíamos na aula de artes. Ohh, meus cinco anos e a coordenação motora que nunca tive. Ohh, a nostalgia. Eu só fazia coisa feia, gente. No colégio, tiveram a idéia de costurar uns saquinhos de pano pra gente colocar lá a marquinha da nossa mão melecada de tinha laranja, com os dizeres “Feliz Dia das Mães, 1988”. Não servia pra nada, a porra do saquinho. Nem sei o que a mamãe fez dele, deve ter guardado. Antes de curtir jogar meus papéis fora, a mamãe tinha hábito de guardar tudo, inclusive coisas que me soam mórbidas, como cachinho de cabelo e dentes-de-leite. Coleção de dentes-de-leite ROCKS. Acho atitude. Já ouvi relatos de mães que fizeram um colar com isso. Wow.

Ah, teve também a flor de celofane que vinha com uma lanterna, essa era bonita. Hmm, nada mal, era psicodélico, cellophane flowers, que nem na minha música. Outro ano – tá, esse presente era útil – foi a latinha de leite condensado coberta de metades de pregadores de roupa envernizados, que no final servia como porta-canetas. O efeito era clássico e super durável, but… só me expliquem DE ONDE o professor de artes tirava essas trips doidas. Ele só pode ter sonhado com isso.

Hoje em dia, manifesto um certo receio de ver o que anda rolando nas aulinhas de arte Brasil afora. Porque, no meu tempo, não lembro de ter a tal arte pós-moderna, que vê valor estético / ideológico em um chumaço de cabelo pregado numa parede e outras ‘obras’ desse tipo. Pois então, quais as influências artísticas que os pivetes estariam tendo hoje em dia? Não tenho idéia, mas faço uma aposta - os professores podem querer, no momento, despertar a consciência ecológica neles, a coisa do aquecimento global, estimulando os artesanatos das garrafas pet - que moram do lado direito do meu peito, you know – e outras reciclagens. Talvez alguma ‘ecobag’, que vem sendo o último grito, o novo balonê em matéria de tendência. Então, e se o meu filho chegasse em casa com uma pet ridícula, escrito “Feliz Dia das Mães, 2015”? Tão deprimente quanto a pet, é aquela praga do e.v.a, vocês conhecem? Eu odeio qualquer coisa de e.v.a. E biscuit. E sementes naturais. E e.v.a. de novo. Pois é, e se o meu pivete me der alguma coisa horrorosinha, que ele ficou dias e dias produzindo com empolgação, o que eu vou fazer? Como agir? O que falar? Rio? Choro? Finjo? Faço a Kátia e não enxergo?

Vou levar essa questão ao meu psiquiatra.
Ainda bem que o Elvis é suuuuuuper talentoso, além de lindo.

Eu sei, você sabe, a torcida do Curíntia SABEM [hohoho] que eu tenho um medo, uma tensão, um pavor descomunal de ser mãe, por essas e outras. Até gostaria, mas o medo de não ter a competência de saber abrir um pacote de figurinhas ou de não conseguir ajudá-lo a cobrir uma figura pontilhada é muito maior. Não sei qual é o maior medo, se é disso ou de o meu filho nascer feio. Sabem como é, essas coisas sempre são possíveis e shit happens. Não venham com hipocrisia, não basta ter saúde - também não pode ter verruga, nem aqueles sinais cheios de cabelo, nem testa grande, dedos curtos, essas coisas. Qualquer coisa, mando tacar laser em tudo. Laser resolve até prisão de ventre, né.

Os meus pais foram legais comigo, na infância. Não fiquei com nenhum trauma por não saber pintar, cantar, dançar, interpretar ou fazer poemas [hehehe, disso nunca fiz a menor questão]. Eles sempre me elogiavam e me davam presentes legais, tipo livros bacanas, caixas registradoras, War, tal. Ahh, sempre gostei. E eles acharam bonito – ou fingiram que acharam bonito – até quando eu pisei num palco vestida de ÁRVORE - com cipós enrolados na minha roupa COLANTE e maquiagem de GLITER -, dançando uma música odiosa da droga da Enya [Nota mental: mandar matar a Enya], no festival de jazz. [Nota mental: mandar matar aquelas 400 testemunhas] Mas, apesar de não ter nenhum tipo de talento e ter sido confundida até a oitava série com uma ALBINA [Nota mental: mandar matar aqueles coleguinhas infelizes], nunca fui loser ou tive a auto-estima baixa e isso é super importante pro nosso desenvolvimento, né.
Assim como os danoninhos, danoninhos foram decisivos.

Eu sabia escrever e falar bem, com os plurais – pra mim é importante e bonitinho, articular plurais bem direitinho, na infância. Eu tinha idéias sagazes. Eu criava histórias legais e imaginativas. Eu sabia os nomes dos bichos do zoológico. Eu era crítica. Eu e mamãe costurávamos roupas pra minha Barbie. Eu jogava vídeo-game e apostava corrida com o papai e ganhava de verdade [eu acredito nisso, ok, não destruam meus paradigmas, ele não facilitava nada pra mim, EU SEI]. Eu ouvia Beatles e Abba. Eu era cúmplice deles na hora de roubar jabuticaba das árvores do restaurante, ajudando a distrair os garçons. Pra mim, coisas inteligentes sempre foram mais importantes do que saber fazer sachê de sabonete Alma de Flores na aula de artes, em datas comemorativas. Essa é a moral da história, acho.

[taí, acho que vou ao programa da Oprah só pra falar esse texto sensível e ganhar uma geladeira de três mil dólares, os livros do Oprah’s Book Club e aplausos de uma platéia de mulheres com cara de doida, que nem a minha na foto desse post]

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tom waits, all the time
tom waits, the return of jackie and judy


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